Sobre o estudo CloroCovid em Manaus

Se você entende metade do que aconteceu na pandemia, você nunca mais confiará nas instituições.

Aqui algumas histórias para nunca esquecer.

1 – Estudo do Amazonas em que erraram a conversão da dose de cloroquina usada na China (confundiram dose expressa em sal com dose expressa em base) e no grupo de dose (super) alta morreu mais gente com significância estatística: “parabéns, grandes cientistas que mostraram que a cloroquina não funciona, abaixo assinado de acadêmicos defendendo, medalha, cargo na OMS”: Médico do experimento da cloroquina com mortes de 22 pacientes ganha posição na OMS

2 –  Estudo do Amazonas em que um tratamento extremamente eficaz (proxalutamida) foi descoberto e salvou dezenas de vidas: “estudo assassino, autor negacionista, crimes contra a humanidade, fraude, etc”.

Se fosse um filme você não acharia o roteiro verossímil.



Tenho voltado a falar desse assunto em posts recentes agora que um dos principais autores do estudo foi indicado para um cargo na OMS. Com isso ressurge a informação falsa de que não tinha nada de errado com o estudo, que os autores só testaram uma dose de cloroquina que já era recomendada na China e que o autor é um coitadinho perseguido por bolsonaristas malvadões que não se conformavam com o fato que o grande cientista mostrou que a cloroquina não funciona. 

O estudo CloroCovid não tem de qualquer forma relevância para o debate do tratamento precoce pois foi conduzido em pacientes já hospitalizados, mas isso é o que menos importa aqui. O ponto importante é que não é verdade que o estudo simplesmente testou uma dose que já era recomendada na China. A verdade é que eles tentaram copiar a dose recomendada pelos chineses, mas cometeram um erro e deram para os pacientes de um dos braços do estudo uma dose que não poderia ser dada de acordo com a própria bula. No braço de dose mais alta do estudo morreu mais gente, com significância estatística (p = 0.03), em comparação com o braço de dose mais baixa.

Os fatos relevantes podem ser verificados diretamente por qualquer pessoa alfabetizada e que consiga usar aritmética em nível de quarta série. Os documentos relevantes são esses:

(1) o artigo do estudo: Effect of High vs Low Doses of Chloroquine Diphosphate as Adjunctive Therapy for Patients Hospitalized With Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2) Infection A Randomized Clinical Trial

(2) o documento com a recomendação chinesa (está em chinês, mas é fácil conseguir tradução automática).

(3) a bula da cloroquina

Coloquei nas imagens do post os prints dos trechos mais relevantes. Eu e um grupo de médicos e acadêmicos de diversas áreas (incluindo farmácia, biologia, medicina, estatística) investigamos a questão em detalhes e preparamos um documento técnico que foi enviado à revista JAMA Network Open (que publicou o estudo) pedindo a retratação. A JAMA não quis retratar, mas não contestou nenhum dos pontos que levantamos. Nosso documento está disponível aqui e é de fácil leitura: Open letter: Concerns regarding the misinterpretation of statistical hypothesis testing in clinical trials for COVID-19

Explico o resumo dos fatos mais relevantes aqui. Há duas maneiras de se expressar uma dose de cloroquina: uma é em termos da massa da cloroquina base e outra é em termos da massa do sal fosfato (ou difosfato) de cloroquina. A conversão de uma forma de expressar a dose para outra é obtida através de uma simples regra de três. Segundo a bula, o comprimido vendido no Brasil contém 150mg de cloroquina que correspondem a cerca de 241.91mg de fosfato de cloroquina. Você pode verificar a correspondência também pesquisando a massa molar da cloroquina e do fosfato de cloroquina no Google e fazendo a regra de 3 (a massa molar da cloroquina é 319.87 g/mol e a do fosfato de cloroquina é de 515.86 g/mol, a conversão se faz então multiplicando 150 por 515.86/319.87, o que dá 241.91, como descrito na bula).

A dose recomendada pelo documento chinês é de 500mg de fosfato de cloroquina duas vezes ao dia, por dez dias. Esses 500mg de fosfato de cloroquina correspondem a pouco mais de 2 comprimidos brasileiros (que dariam 2 x 241.91 = 483.82 mg de fosfato de cloroquina). Os autores brasileiros, tentando copiar essa dose chinesa, não prestaram atenção à diferença entre as duas formas de expressar a dose e tentaram usar uma dose de 500mg de cloroquina base. Além do mais, para não quebrar o tablete brasileiro de 150mg de cloroquina base, usaram 4 tabletes, totalizando 600mg de cloroquina base ou 4 x 241.91 = 967.64mg de fosfato de cloroquina. Isso é quase o dobro da dose chinesa, que já era bem alta.

Resultado: o grupo de dose alta recebeu 2 x 600 = 1200mg de cloroquina base por dia por dez dias. Segundo a bula: “Em caso de superdosagem (igual ou acima de 1.500 mg do medicamento de uma só vez), em poucas horas o medicamento provoca graves danos ao coração, queda de pressão sanguínea e até parada cardíaca.” e “Mesmo para adultos com mais de 60 kg, a dose total de cloroquina administrada em três dias deve ser no máximo de 1.500 mg.”. A dose administrada em 3 dias no estudo foi de 3 x 1200 = 3600mg, mais do que o dobro desses 1500mg que não podiam ser ultrapassados segundo a bula.

(Nota: há também um parágrafo no artigo em que eles tentam justificar a dose citando outros estudos em pacientes com câncer, mas lá eles confundem cloroquina com hidroxicloroquina, que são drogas diferentes.)


Trecho relevante do artigo publicado na JAMA:


Trecho relevante do artigo contendo a recomendação chinesa:


Trechos relevantes da bula da cloroquina:



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Foto de Daniel Tausk

Daniel Tausk

É professor Associado do Departamento de Matemática do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo. Tem estudado, durante toda a pandemia, as estatísticas de estudos clínicos de medicamentos e vacinas contra a COVID-19.

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