Editorial: e o Ciência Suja realmente alienou seus ouvintes

O Podcast “Ciência Suja” fez mais um episódio para atacar o MPV. Nós antecipamos o episódio, eles confirmaram a previsão.

Prometemos. E eles cumpriram.

Antes do episódio ir ao ar, publicamos aqui uma análise antecipada do que o podcast “Ciência Suja” faria em seu ataque ao MPV. Dissemos que eles alienariam seus ouvintes de um fato central, incontornável, o mais importante da discussão de ciência e saúde pública no Brasil dos últimos anos. E foi exatamente isso que aconteceu.

Não por acaso. Por necessidade.

O fato que não pode ser narrado

Existe um fato. Um fato simples, verificável, público, documentado por governos e organismos de saúde do mundo inteiro.

O Brasil é o único país do planeta que obriga crianças saudáveis a tomarem a vacina contra a Covid-19.

Único. Não existe segundo lugar. Nenhum outro país da Terra faz isso.

A Alemanha não faz. O Reino Unido não faz. A Suécia não faz. A Dinamarca não faz. A Suíça não faz. Os Estados Unidos não fazem. O Japão não faz. A Austrália não faz. Nenhum país faz. 

Na verdade, esses países listados, apenas para citar alguns exemplos, sequer recomendam a vacina para crianças saudáveis. Reservam a indicação para casos específicos, com avaliação médica rigorosa e individual, jamais como obrigação imposta a toda uma população infantil.

O vírus que circula nesses países é o mesmo que circula no Brasil. A biologia das crianças europeias, americanas e asiáticas é a mesma das crianças brasileiras. Para que a equação de risco e benefício fosse diferente aqui, precisaria existir alguma evidência científica específica, como por exemplo, que crianças brasileiras são biologicamente mais resistentes aos efeitos adversos. Essa evidência, obviamente, não existe.

O motivo desses países sequer recomendarem? Os dados são claros: risco supera, e muito, os possíveis benefícios em crianças saudáveis, a imensa maioria delas. Ou seja, o Brasil está ferindo crianças, comprometendo a saúde delas, com essa política.

Existe, porém, um terceiro fator que poderia explicar a anomalia: interesse econômico. A obrigatoriedade cria demanda compulsória. Demanda compulsória gera lucro garantido. É uma lógica de mercado aplicada a um produto farmacêutico injetado em crianças.

Este é o debate. O debate científico, sanitário e ético mais relevante da saúde pública brasileira contemporânea.

E o Ciência Suja, em seu longo episódio sobre o MPV, não tocou no assunto uma única vez.

Mas é preciso entender por quê, e a razão vai além da omissão simples. O Ciência Suja não pode nem narrar esse fato. Não pode nem enunciá-lo para seus ouvintes. Porque narrar já é perigoso. Só de ouvir que o Brasil é o único país do mundo nessa política, o ouvinte começa a pensar, a raciocinar. Começa a fazer perguntas, a usar a razão. E um ouvinte que faz perguntas é um ouvinte que o podcast perdeu.

O silêncio, portanto, não é jornalístico. É estratégico. É a manutenção de um arsenal.

O rótulo que só funciona na escuridão

Durante anos, o Ciência Suja e seus aliados usaram um rótulo com precisão cirúrgica: “antivacina”.

A palavra não foi escolhida por ser precisa. Foi escolhida por ser eficaz. “Antivacina” funciona como um gatilho emocional. Assim que o ouvinte o escuta aplicado a alguém, o cérebro fecha. Não importa mais o argumento que vem a seguir. O rótulo já fez seu trabalho: desligou a racionalidade, ativou a rejeição, eliminou a escuta.

É uma técnica conhecida. Rotular para não precisar debater.

O problema é que esse rótulo tem uma vulnerabilidade fatal. E o Ciência Suja sabe disso. Ele só funciona enquanto o ouvinte não souber que o mundo inteiro faz exatamente o que o MPV defende.

Porque se o ouvinte souber, a pergunta inevitável surge: a Alemanha é “antivacina”? A Suécia é “antivacina”? O Reino Unido, a Dinamarca, a Suíça, a Europa inteira “antivacina”? Por que os países que possuem alguns dos sistemas de saúde mais respeitados do planeta, com epidemiologistas de classe mundial, e que decidiram, com base em evidências, não recomendar essa vacina para crianças saudáveis?

Quando o rótulo tiver que ser aplicado ao mundo inteiro, ele implode. Vira absurdo. Vira piada.

Por isso o fato não pode ser narrado. Por isso o silêncio é total. O rótulo “antivacina” é a arma mais poderosa que os construtores de narrativas têm contra nós. E ele só funciona na escuridão. No momento em que a luz acende, a arma some.

Coragem. Que palavra bonita.

No episódio, o Ciência Suja gosta de invocar uma virtude. Falam em coragem. Coragem jornalística. A bravura de enfrentar o poder, de dizer o que outros calam, de ir aonde é difícil.

Paremos um momento com essa palavra.

Durante toda a pandemia de Covid-19, anos de debate científico intenso, de decisões com consequências de bilhões de dólares, de políticas sanitárias que afetaram centenas de milhões de pessoas, o Ciência Suja não dedicou um segundo sequer a questionar os interesses das grandes corporações farmacêuticas e da OMS. Não questionou sobre contratos. Não levantou dúvidas sobre pressões regulatórias. Não fez nenhum episódio sobre a influência da indústria sobre as instituições de saúde e associações médicas. Nada.

O que fizeram, episódio após episódio, foi repetir o que já estava nos comunicados dos departamentos de marketing das grandes corporações farmacêuticas. Validar a narrativa oficial. Amplificar o que já era consenso entre quem detinha o poder econômico e regulatório do setor.

Isso tem um nome. Não é coragem. É o oposto da coragem.

E quando se voltaram para a batalha, os alvos escolhidos foram sempre os menores: médicos dissidentes, associações sem grande estrutura, pesquisadores sem departamentos jurídicos robustos. Trincheiras com poucas armas. Enquanto os tanques de guerra das grandes corporações rolavam livres pelo campo, o Ciência Suja atacava quem tentava detê-los.

Chamar isso de coragem jornalística é uma inversão tão radical da realidade que precisaria, ela própria, de investigação.

Caçadores de fraude com olhar seletivo

O Ciência Suja se apresenta ao mundo com uma missão nobre: “Contamos histórias de fraudes científicas e seus prejuízos para a sociedade.”

Fraudes científicas. Prejuízos para a sociedade. Interesses comerciais disfarçados de ciência. É para isso que existem, segundo eles mesmos.

Agora, uma pergunta simples, a pergunta que qualquer ouvinte com raciocínio crítico deveria fazer:

Como é possível que um podcast dedicado a investigar fraudes científicas jamais tenha investigado por que o Brasil é o único país do mundo com vacinação Covid obrigatória em crianças?

Não é uma questão obscura dos porões da internet. Não é uma teoria de conspiração. É um fato escancarado, confrontável em segundos nos sites oficiais dos governos do Reino Unido, da Alemanha, da Suécia. É uma anomalia sanitária que levanta questões científicas sérias e que, por coincidência geográfica e regulatória, gera lucros enormes para fabricantes específicos.

Se o Ciência Suja investigasse isso, teria que chegar a alguma conclusão. Ou concluiria que o Brasil tem razão e todos os outros países erram, e precisaria explicar com base em qual evidência, ou concluiria que algo está muito errado, e teria que apontar o dedo para forças muito mais poderosas do que o MPV.

Eles não foram por nenhum dos dois caminhos. Escolheram o terceiro: fingir que a questão não existe.

Em um podcast sobre fraudes na ciência.

Que conveniente.

A coragem de investigar o que já não dói em ninguém

Há um padrão ainda mais revelador, e ele merece atenção especial.

O Ciência Suja é perfeitamente capaz de investigar grandes corporações farmacêuticas e seus crimes contra a humanidade. Faz isso com entusiasmo, com produção caprichada, com a gravidade solene de quem enfrenta o poder.

Quando o assunto é a talidomida.

Quando o assunto são os opioides.

Quando o assunto é algum escândalo que já virou filme, já virou série, já virou livro de aeroporto. Quando os lucros já acabaram, quando os mortos já foram enterrados, os executivos já se aposentaram, as empresas já pagaram as multas e seguiram em frente.

Nesses casos, sim. Nesses casos há muita coragem. Nesses casos a investigação flui, o microfone vai longe, a narrativa é poderosa, tudo com trilhas sonoras dramáticas.

Mas quando o absurdo está acontecendo agora, quando os contratos ainda estão ativos, quando os lucros ainda estão sendo contabilizados, quando a política que não existe em nenhum outro país do mundo está sendo aplicada hoje em crianças brasileiras, aí o Ciência Suja silencia.

Investigar o passado longínquo não perturba ninguém que importa. Investigar o presente perturba quem tem poder de reagir.

E essa distinção, mantida com consistência absoluta ao longo de anos, não é coincidência. É um critério. Um critério não declarado, mas perfeitamente operacional.

O padrão que nunca quebra

Não é um episódio. Não é uma temporada. É uma carreira inteira.

Some os alvos do Ciência Suja ao longo dos anos e observe o que emerge: de um lado, uma lista extensa de médicos dissidentes, pesquisadores independentes e associações sem departamento jurídico robusto. Do outro lado, um espaço em branco onde deveriam estar as grandes corporações, os contratos bilionários ativos, a influência da indústria sobre reguladores, o lado do poder real.

O espaço em branco não é ausência de pauta. É uma escolha repetida, todos os dias, durante anos.

E escolhas repetidas, na mesma direção, sem uma única exceção, têm um nome. Não se chama jornalismo. Chama-se alinhamento.

O dinheiro que não se discute

O Ciência Suja informa em seu próprio site, sem esconder: o podcast tem apoio do Instituto Serrapilheira.

O Serrapilheira é uma instituição privada fundada em 2017, com sede no Rio de Janeiro, dedicada ao fomento da ciência e a “divulgação científica” no Brasil. Suas atividades são financiadas pelos rendimentos de um fundo patrimonial de R$ 350 milhões, constituído pelo casal João e Branca Moreira Salles, a mesma família controladora do Itaú Unibanco, o maior banco privado da América Latina.

É um fato público. Está na Wikipedia. Está nos registros do instituto. E o Ciência Suja o declara, nos episódios, no site. Não há ocultação.

O que há é algo mais revelador do que ocultação: total ausência de curiosidade sobre o que essa informação significa.

Um programa jornalístico, investigativo, que declara um conflito de interesse e segue em frente, sem nunca se perguntar se esse conflito influencia o que investiga (e sobretudo o que não investiga), não resolveu o problema ético. Apenas o tornou visível.

Agora, um contexto igualmente público, igualmente documentado.

A pandemia de Covid-19 foi, segundo relatório da Oxfam de 2022, a maior transferência de renda da história da humanidade, dos mais pobres para os mais ricos. Enquanto mais de 160 milhões de pessoas eram empurradas para a pobreza extrema e a renda de 99% da humanidade caía, os dez homens mais ricos do mundo mais que dobraram suas fortunas, de 700 bilhões para 1,5 trilhão de dólares. Um novo bilionário surgia a cada 26 horas. Os mercados financeiros, impulsionados por pacotes de estímulo e valorização de ativos, nunca estiveram tão bem. 

Bancos e gestoras de patrimônio estavam entre os grandes beneficiários. A pandemia foi uma dádiva para o 0,1%.

É apenas um contexto. Fatos públicos, relatório de uma das maiores organizações humanitárias do mundo. Cada leitor tira suas próprias conclusões.

Mas a cadeia não para aí.

Entre os divulgadores científicos patrocinados pelo Serrapilheira está Átila Iamarino, um dos rostos mais reconhecidos da comunicação científica brasileira durante a pandemia, e uma das vozes mais ativas na defesa do lockdown, que foi eficaz em deixar os bilionários mais ricos e os pobres mais pobres, mas cuja utilidade real ainda divide a comunidade científica internacional, e na defesa irrestrita das políticas vacinais. O mesmo Átila Iamarino que figura entre os divulgadores científicos que se tornaram garoto-propaganda da Pfizer.

Serrapilheira financia. Pfizer patrocina. A narrativa permanece intocada.

Ou seja, os patrocinados do Serrapilheira se entrelaçam com os patrocinados diretamente por grandes corporações farmacêuticas. Átila é apenas um dos exemplos dessa ecologia.

O Ciência Suja declara seu financiamento. Nunca, porém, dedicou um episódio a investigar se esse financiamento define o que cobre. E o que silencia. Nunca fez a pergunta mais básica do jornalismo investigativo sobre si mesmo: quem paga? E o que o pagador tem a ganhar?

Em um podcast supostamente sobre fraudes na ciência.

Que conveniente.

A alienação em tempo real

No episódio sobre o MPV, o Ciência Suja passou dezenas de minutos discutindo processos judiciais, conceitos jurídicos, relatos emocionais de medo e ansiedade, e a biografia de advogadas.

É legítimo falar de assédio judicial. É um tema real.

Mas enquanto o podcast construía sua narrativa de vítima perseguida, havia uma criança brasileira sendo obrigada a receber uma injeção que os países mais desenvolvidos do mundo consideram perigosa para ela.

Isso não mereceu um segundo de atenção.

Não porque o Ciência Suja desconhece o fato, nós o apontamos publicamente, antes do episódio ir ao ar, com toda a clareza do mundo. Eles sabiam. E escolheram o silêncio.

Porque falar implicaria em defender o indefensável, ou em apagar, de uma vez por todas, o rótulo “antivacina” que tanto lhes serve. Porque narrar esse fato diante dos ouvintes seria entregar a eles exatamente o pensamento crítico que o podcast existe, em parte, para evitar.

Os ouvintes do Ciência Suja merecem saber o que não estão ouvindo. Merecem saber que o podcast que diz protegê-los de fraudes científicas os está protegendo, acima de tudo, de uma informação: a de que o Brasil executa uma política sanitária sem paralelo no mundo, que contraria o consenso científico internacional, e que gera bilhões em demanda garantida para fabricantes de vacinas.

Isso é alienação. Deliberada, sistemática e funcional.

Nossa posição

O MPV não tem medo de se opor aos interesses de corporações poderosas. Nunca teve. Publicamos as perguntas do Ciência Suja, respondemos cada uma, e desafiamos publicamente o podcast a abordar o único ponto que realmente importa nesta discussão.

Eles responderam com silêncio sobre o mérito e barulho sobre processos judiciais.

O desafio permanece aberto: façam um episódio sobre o Brasil ser o único país do mundo com vacinação Covid obrigatória em crianças. Mostrem as evidências que justificam essa singularidade. Ou expliquem aos ouvintes por que não conseguem fazer esse episódio.

Seguiremos em campo. Há crianças brasileiras sendo submetidas hoje a uma política que o mundo inteiro rejeitou. Há famílias sendo multadas por não cumprirem uma obrigação que nenhum outro país civilizado impõe. E há um podcast que se diz guardião da ciência olhando para o outro lado.

E involuntariamente, o “Ciência Suja”, por motivos não intencionais, justifica seu nome.

A história vai registrar o silêncio de cada um.


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Redação MPV

Equipe de jornalismo do MPV - Médicos Pela Vida, uma associação médica com milhares de associados que se notabilizou no atendimento da linha de frente da COVID-19.

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