Checamos: Drauzio Varella chama de ‘epidemia de estupidez’ rejeição de máscaras. Pedimos evidências de eficácia. Ele não respondeu. Leia e-mails completos.

Drauzio delirou e chamou de estúpido quem decidiu não delirar junto com ele.

No dia 14 de agosto, a BBC amplificou a voz de Drauzio Varella para dizer que médicos e cidadãos que questionaram as máscaras sofriam de uma ‘epidemia de estupidez’. Mundo vive ‘epidemia de estupidez’, diz Drauzio Varella

Pois bem: ciência não se faz com adjetivos, se faz com dados e evidências científicas. Nós, do MPV, resolvemos testar a ciência do Dr. Drauzio na prática.

Mandamos um e-mail simples, direto, e humildemente pedimos que enviassem o link do estudo padrão ouro (ECR) que comprova a eficácia. Era só colar o link. E dissemos que, se mandassem, o MPV mudaria sua posição publicamente.

Entramos em contato com a BBC Brasil e com a Júpiter Conteúdo (empresa que gerencia a presença online de Drauzio Varella). Eles não responderam.

Aqui, por transparência absoluta, publicamos os e-mails na íntegra:

Primeiro contato – 28 de agosto de 2026
Prezados jornalistas da BBC Brasil e Drauzio Varella,

Nós, do MPV – Médicos Pela Vida, associação médica com milhares de médicos, realizamos checagens de fatos com o objetivo de combater a desinformação e promover informações confiáveis em saúde para médicos, associados e público geral que acessa nosso site e redes sociais.

O que queremos checar?
Lemos com atenção o texto publicado na BBC Brasil, em 14 de agosto, com o seguinte título: “Mundo vive ‘epidemia de estupidez’, diz Drauzio Varella”. 

A notícia informa que Drauzio participou de um evento gratuito promovido pela BBC World Service e pela BBC News Brasil sobre os desafios do combate à desinformação no Brasil.

Afirmação de Drauzio
A matéria informa que Dráuzio, nos anos 2020, se deparou com o o que ele chama de “epidemia de estupidez”. Essa estupidez, diz a matéria, “rejeita o uso de máscaras contra a covid-19 e vacinas”.

Nosso foco nesta checagem é exclusivamente sobre as máscaras e sua eficácia durante a pandemia.

Posições institucionais atuais do MPV em relação às máscaras

1 – Nunca houve comprovação científica das máscaras (ensaios clínicos randomizados). Seu uso, dizendo que foi cientificamente comprovado, foi uma farsa de grandes proporções.

2 – Sem eficácia comprovada estatisticamente, não é possível afirmar que os benefícios existam ou que superem os riscos do uso. Portanto, a balança custo-benefício, baseada nas melhores evidências disponíveis, condena qualquer tipo de obrigatoriedade.

3 – Os meios de comunicação ao afirmarem que existia eficácia gerou uma falsa sensação de segurança em quem usou, expondo pessoas ao risco, aumentando a disseminação do vírus, quando os usuários achavam que estavam protegidas.

4 – As políticas públicas obrigando o uso foram uma fraude monumental e jamais devem ser repetidas.

5 – Políticas públicas precisam ser baseadas em evidências científicas sólidas.

6 – Sem eficácia comprovada, o que restou na prática foi o uso das máscaras como instrumento de controle social, e não como medida de saúde pública baseada em ciência.

Os dados que o MPV possui
No momento, o estudo que nossa associação se baseia para informar nossos médicos associados e o público em geral é a última revisão Cochrane das máscaras, publicada em janeiro de 2023. O título é: “Physical interventions to interrupt or reduce the spread of respiratory viruses”. (Intervenções físicas para interromper ou reduzir a propagação de vírus respiratórios).

A biblioteca Cochrane é o mais alto nível de evidência científica. Fez uma meta-análise incluindo apenas ensaios clínicos randomizados (ECR), o “padrão ouro” da ciência. (Figura: Analysis 1.1).

O gráfico da meta-análise

O foco aqui é na comparação entre usar máscaras médicas/cirúrgicas versus não usar máscaras.

É um forest plot (gráfico de floresta), típico de meta-análises. Ele junta resultados de vários estudos randomizados controlados (RCTs) para ver o efeito geral. Cada linha horizontal representa um estudo (ou subgrupo). O quadrado preto no meio da linha mostra o resultado daquele estudo (quanto menor o maior risco de doença com máscara). A linha horizontal é o intervalo de confiança de 95%. O diamante no final é o resultado combinado (média ponderada de todos os estudos). A linha vertical no meio (em 1) significa sem diferença (máscara = sem máscara). O eixo horizontal mostra o Risk Ratio (RR): Razão de Risco.

Os resultados da Cochrane?
Doenças semelhantes à influenza ou COVID apresentam um risco relativo combinado de 0,95 e não é estatisticamente significativo. Infecção confirmada em laboratório (influenza ou SARS-CoV-2) apresenta um risco relativo combinado de 1,01. Outros vírus respiratórios confirmados em laboratório (apenas um estudo – Bundgaard 2021), risco relativo de 0,58 e não é estatisticamente significativo.

Ou seja, a eficácia não foi comprovada no mais alto nível de evidência científica, apesar de diversos estudo terem tentado achar resultados disso.

Prazo
Temos um prazo até quarta-feira para fecharmos a checagem. Lembrando que é uma tarefa extremamente simples. Basta, apenas e simplesmente, enviar o link com um estudo “padrão ouro”, controlado, ou seja, do mesmo nível da Cochrane, que comprove, como Drauzio Varella afirmou, eficácia. Portanto, estatisticamente significativo.

Responsabilidade com informações na saúde
Obviamente, um comunicador público de saúde de alto calibre, inclusive com programa no Fantástico, como Drauzio Varella, que fala em nome da ciência, colocando-se, justamente, como um porta-voz da ciência, não tira conclusões sobre a eficácia das máscaras de vozes de dentro da sua cabeça. Portanto, será extremamente fácil para ele nos enviar o link desse estudo, revisado por pares e publicado em um periódico científico de respeito.

Lembrando que os membros do MPV, além do público geral que nos lê, estão ávidos e humildemente prontos para o aprendizado de Drauzio. “O ignorante aprende quando é ensinado”, nas palavras do próprio Drauzio. Portanto, nos comprometemos, em nome da defesa da ciência, assim que ele enviar o estudo científico, fazermos uma matéria informando a todos que há, sim, eficácia das máscaras contra a COVID-19. O MPV também se compromete a mudar completamente sua posição diante das evidências científicas.

Certamente, Drauzio não faz parte, como ele critica em suas próprias falas, de grupos de desinformação, portanto, será extremamente fácil e rápido ele nos indicar o estudo que se baseia, afinal, como diz a própria matéria da BBC: “há várias décadas, Varella vem se dedicando profundamente à comunicação de informações cientificamente embasadas”.

Lembramos também que não é apenas responsabilidade de Drauzio enviar esse estudo, caso tenham dificuldade em contato com ele ou que ele se perca na busca dessas evidências, afinal, suas falas foram em um evento da BBC sobre os desafios do combate à desinformação, onde sua voz foi amplificada por esse meio.

Obrigado

O prazo que demos era até a quarta-feira seguinte, 2 de setembro. Nós reiteramos no dia anterior:

Reiteração – 1º de setembro de 2026


Boa tarde,

Lembrando duas coisas:

Primeira: basta apenas enviar o link ou a citação do estudo. É coisa de 30 segundos.

Segunda: a BBC News Brasil, como empresa jornalística, também é responsável pelo conteúdo. Deve checar tudo antes de publicar. Não ser um mero megafone para as pessoas falarem o que querem. Ou seja, também é responsável por enviar o link da sua apuração que confirma o que foi dito, certo?

Aguardamos,

Passados dois dias do prazo para envio de um mero link, na sexta-feira, 4 de setembro, entramos em contato novamente:

Último contato – 4 de setembro de 2026 (prazo já estourado)

Prezados, boa tarde.

Mandar o link ou dizer qual estudo sustenta a eficácia das máscaras é coisa de 30 segundos. Demos prazo até quarta-feira para fecharmos a checagem, mas ainda ampliamos mais dois dias. Hoje é sexta-feira. Já faz uma semana o pedido. Nada ainda? Não sobrou trinta segundos para enviar um mero link?

Nós já nos comprometemos, depois que enviarem o estudo que comprova a eficácia, de mudarmos institucionalmente nossa posição. Mesmo assim não sobram 30 segundos para enviar? Imagina que boa história o Drauzio, um proeminente e feroz combatente da desinformação médica, teria para contar que um grupo de médicos que resistiam finalmente aprenderam com ele? Justo os médicos que, segundo ele, são “estúpidos”, afinal, são os médicos que “rejeitam as máscaras”. Dá história para uma palestra, um documentário, um vídeo viral maravilhoso.

Alô, câmbio, estão aí? Não existe esse estudo? Não vão dizer que era uma mera opinião pessoal de Drauzio que funciona, não é mesmo? Não vão dizer que Drauzio trata máscaras como religião, não é?

Aguardando

Hoje é 9 de setembro e eles ainda não responderam.

Comentário MPV

Passou o prazo. Estendemos. Passou uma semana. O que recebemos? Nada. Nem um “não temos”, nem um “estamos procurando”, nem um link quebrado. O feroz combatente da desinformação preferiu o silêncio ensurdecedor a encarar a meta-análise da Cochrane que enterra sua fé nas máscaras.

Se existe ciência, por que não mostram? Se é “estupidez” questionar, por que não provam estarmos errados? A resposta é óbvia: porque a evidência de eficácia das máscaras não existe. Enquanto isso, o Dr. Drauzio continua no Fantástico, chamando colegas de profissão de estúpidos, mas quando a luz da ciência bate na porta dele, ele apaga a luz e finge que não está em casa. A maior farsa não foi a máscara em si, mas a soberba de quem a impôs sem evidência e se recusa a debater quando confrontado.

Ou seja, Drauzio delirou e chamou de estúpido quem decidiu não delirar junto com ele.

Máscaras foram um surto coletivo. O mais interessante é a quantidade de “especialistas” que dizem falar apenas baseados em evidências, repetindo a mesma cantiga no mesmo tom arrogante e agressivo — e depois, quando desafiados, não conseguem sustentar o que dizem. É a terceira vez que checamos afirmações contundentes sobre as máscaras.

Em fevereiro deste ano, pressionamos pesquisadores que escreveram na Folha. Checamos: professor da USP afirmou na Folha que há eficácia ‘consistente’ das máscaras, depois admitiu não ter evidências.

Ano passado, pesquisadores do “Sou ciência” afirmaram que as máscaras eram eficazes e pediram prisão de quem discordasse. Mandamos e-mail para checagem de fatos. Quem respondeu foi o jurídico da Folha. Explicaram que a eficácia era uma mera opinião dos autores. Checagem: leia a surpreendente resposta do jurídico da Folha de S. Paulo ao MPV

A “voz da ciência” nos EUA ficou muda 111 vezes no congresso americano. A “voz da ciência no Brasil” se escondeu. Vivemos tempos difíceis de desinformação. Até quando?

Adendo

Se o Dr. Drauzio ou a BBC enviarem o estudo depois desta publicação, publicaremos a retratação imediata com o mesmo destaque. Até lá, o silêncio deles é a nossa maior prova. Compartilhe para que ninguém mais caia na conversa de quem prega ciência, mas some quando a ciência de verdade bate à porta.


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Foto de Redação MPV

Redação MPV

Equipe de jornalismo do MPV - Médicos Pela Vida, uma associação médica com milhares de associados que se notabilizou no atendimento da linha de frente da COVID-19.